Artigo publicado na revista Psychologie em 1982, por Catherine Dreyfus.

A voz é o reflexo de nossa personalidade. À luz dessa constatação, numerosos psicoterapeutas fazem trabalhar os órgãos vocais de seus pacientes para reencontrar o timbre ideal, o som que agrada. Conclusão lógica: quando se está bem em sua voz, sente-se bem em seu ser — e vice-versa.

Há cerca de dez minutos, os sons mais surpreendentes saem da fina jovem morena e encaracolada que, diante de mim, balança e gira como um animal sobre o rastro de um aroma sedutor: grunhidos de fera no encalço, cantos de sereia, gorjeios de pardal, gemidos de gatos no atalho do amor, acordes de soprano ou de barítono… Ela passa do grave ao agudo, da energia feroz à doçura extrema, com uma facilidade desconcertante, entrecortando o todo de gemidos roucos e abruptos como soluços. É de causar arrepios nas costas.

Margaret Pikes ousa ir até o fim de si mesma. Nada de sua voz lhe é estranho. Faz mais de quinze anos que a trabalha: pode tirar dela praticamente tudo o que quer. Nenhuma nota, nenhum grito, nenhuma emoção lhe causam medo. Margaret pertence ao Roy Hart Théâtre, uma comunidade teatral baseada nas Cévennes, para a qual o som da voz, independentemente mesmo das palavras, é o instrumento de expressão por excelência.

Faz parte do número crescente de pesquisadores, terapeutas e artistas que exploram essa ferramenta. Veem nela, por um jogo de palavras que nada deve ao acaso, uma via régia da descoberta de si mesmo. Trabalhar a voz, estimam eles, nada é tão eficaz para assegurar ao máximo o desenvolvimento pessoal. É uma das maneiras mais gratificantes de chegar a isso.

Nada é mais pessoal que uma voz. Nada é mais revelador. Reconhecemos, de olhos fechados, aqueles que nos são caros. Pressentimos o estado em que se encontram. «Você está com uma voz boa hoje!» Ou: «Olha só, o que está acontecendo, você está com uma voz estranha?» Mas reagimos também por instinto, na maioria das vezes sem o saber, à voz da maior parte de nossos interlocutores. Um timbre, uma entonação podem transformar um encontro em desastre ou em paixão fulminante, em negociação relâmpago ou em fiasco. Há vozes tão insuportáveis que nem se ouve mais seu proprietário dizer: «Passe-me o sal!» Outras tão sedutoras que se fica, contra a própria vontade, sob o encanto. Vozes tão hesitantes, tão inaudíveis, que apelam à agressão, à catástrofe. Outras tão forçadas que se rasgam e ferem. Outras tão pousadas que impõem por si mesmas o respeito. O efeito é tanto mais profundo e brutal quanto, em geral, permanece inconsciente.

Ora, jogar com a voz se aprende. Nada nesse domínio é fatal: a pior deficiência é superável. Como diz Louis-Jacques Rondeleux, professor de canto e de dicção no Conservatoire national supérieur d’art dramatique de Paris: «A voz é como um instrumento de música. A qualidade do som que se tira dela depende tanto do instrumento quanto do músico — e mais ainda, talvez, da maneira como ele o usa.»

A técnica, indispensável, é apenas uma questão de ginástica. Uma vez aprendida ou reencontrada, torna-se tão simples quanto o caminhar. A dificuldade é assumir-se, deixar a voz dizer o que se é. Oferecer-se o prazer, correr o risco, através dela, de exprimir-se — e às vezes mesmo de descobrir-se.

Para emitir um som, é preciso fazer «vibrar» as cordas vocais projetando sobre elas, na expiração, o ar contido na glote. A nota emitida — o fundamental da voz — é mais ou menos aguda ou grave segundo a rapidez, a frequência do movimento. Está ligada em boa parte ao comprimento, à espessura das cordas vocais: por isso as vozes evoluem com a idade, em particular no momento da muda, em que as cordas vocais se desenvolvem fortemente nos homens. Mas o papel dos músculos da laringe é igualmente importante: deles dependem a extensão da voz e o registro. E o que há de mais sensível às emoções que a região da garganta e do pescoço?

O timbre, por seu lado, adquire-se na passagem da onda sonora pelas caixas de ressonância que constituem a faringe (a retaguarda da garganta), a boca, o nariz. E enfim a articulação: o movimento da língua, dos dentes e dos lábios transformam o som em linguagem. Aí também tudo é dado e maleável. O corpo inteiro é um instrumento vibrante; quanto mais livre, mais os sons se tornam ricos e plenos. Imaginam-se sem esforço as repercussões vocais da menor tensão…

Na sequência de um conflito interior, é possível deteriorar-se completamente a laringe. Um executivo havia-se posto em tal estado que fora preciso operá-lo de urgência. Após uma «promoção», pediram-lhe, além de um trabalho já absorvente, que ministrasse uma série de cursos para os quais não se sentia em absoluto preparado. Em algumas semanas, viu-se afônico.

Inversamente, reencontrando a voz e o prazer de servir-se dela, podem-se fazer desaparecer lesões bem físicas, como nódulos sobre as cordas vocais. É frequente nas crianças, em que uma voz «pavorosa» não faz senão traduzir tensões, um desequilíbrio nas relações familiares. Ajudado, o pequeno paciente reencontra não somente um timbre mais agradável, uma laringe em bom estado, mas um lugar mais satisfatório em sua família.

Geralmente, contudo, a laringe está intacta. Se a voz é ruim, é porque se faz mau uso dela. O timbre pode ser pobre demais, metálico demais; a melodia monótona, o débito lento demais ou rápido demais, a intensidade fraca demais ou forte demais, o som anasalado; o efeito de conjunto em contradição completa com o aspecto físico, a personalidade aparente da pessoa que fala. Mecanicamente, nada mais fácil de arranjar: é uma simples questão de ginástica. Ainda é preciso que o mental siga, que se aceite modificar sua imagem sonora. É outra história.

ABC: a reeducação física

Reencontra-se à base da maioria dos métodos de trabalho sobre a voz: para servir-se bem desta, é preciso ter uma respiração livre, que parta do diafragma, como a dos bebês. E uma postura correta, costas bem retas, sem curvatura excessiva dos rins e da nuca. O sopro, as costas? Reencontra-se aí a sede de predileção de todas as tensões. Nada como, para bloquear uma emoção, «cortar» a respiração. Ou encerrar-se em si mesmo arqueando as costas. Liberar o corpo é repor o instrumento em estado de funcionar, sair de suas defesas posturais. Frequentemente, isso basta para que se operem transformações espetaculares.

Yva Barthélémy, professora de canto, forma sobretudo profissionais. Mas seu método, assegura ela, é acessível a qualquer pessoa. Liberta mesmo os tímidos, as vítimas de autocensura persuadidas de serem «incapazes de emitir uma nota». Seu segredo? Antes do menor vocalize, faz fazer toda uma ginástica da mandíbula, da boca, do pescoço. Pô-la a ponto ela mesma, no início para reeducar-se: havia perdido a voz. Hoje, o trabalho que propõe permite, sem riscos, desenvolver o registro de modo surpreendente. Utiliza-se ao máximo o diafragma, alonga-se a nuca. Estica-se a língua até o nariz ou até o queixo, fazem-se caretas de gárgula, imagina-se ter na boca uma bola de tênis que incha, que incha, levantando o palato. Em suma, procede-se a toda uma série de «dilatações internas» que permitem à laringe trabalhar no relaxamento. E que massageiam em profundidade o plexo solar.

O resultado é perfeitamente euforizante. Cheguei à minha primeira aula esgotada por um dia estressante. Saí de lá em plena felicidade. «Praticado dessa maneira, o canto tem resultados surpreendentes sobre o estado geral», constata Yva. Sem dúvida porque a ginástica que propõe toca pontos particularmente sensíveis às tensões de origem psicológica: nuca, mandíbula inferior, diafragma, plexo solar? Conseguir distendê-los a fundo é já ver a vida sob um novo dia!

Reencontrar o tônus

Numerosos médicos e psiquiatras enviam-lhe, aliás, pacientes «em baixa»: em pouquíssimo tempo, fê-los reencontrar seu tônus, físico e mental. «Não é por acaso que a voz é colocada onde está: entre a cabeça e o corpo, diz ela. Só pode funcionar corretamente quando os dois estão em harmonia. Que um ou outro tome a predominância, tudo emperra…»

Posta a ponto por um ator australiano que se tornava afônico em cena, a técnica Matthias Alexander é paradoxal. Para ter uma boa voz, ensina a não tocá-la — a libertar todo o resto! Sua base é uma «ginástica suave» em que o mental conta tanto quanto o corpo. Aprende-se essencialmente a «não fazer» — a não contrariar os movimentos instintivos do corpo, naturalmente justos, por tensões inúteis. Para falar, por exemplo, começa-se libertando a nuca, deixando a cabeça reencontrar seu lugar correto: isto é, quando se está de pé, bem alta, sem apontar o queixo, a fontanela o mais longe possível do sacro. Liberam-se os ombros, alongam-se, alargam-se as costas ao máximo — e tudo se põe a funcionar sem problema, sem esforço, inclusive a voz.

Para falar, tem-se necessidade de sopro. Tende-se a tomá-lo avidamente, a encher os pulmões depressa demais, brutalmente, contraindo os ombros e as costelas. O resultado não tarda: a laringe se crispa, a voz se desafina. Na técnica Matthias Alexander, começa-se adotando uma postura correta. Bem distendida. Deixa-se o ar entrar tranquilamente, sem pressa, sem forçar minimamente, sem intervir. Por exemplo, está-se fazendo uma leitura em voz alta. Cada vez que se precisa de ar, para-se, espera-se que os pulmões se encham por si mesmos, e retoma-se. Desliga-se completamente do texto. Muito rapidamente, descobre-se que se tem ar bastante para terminar a frase.

Fazem-se «aa» cochichados, amplificando o som do ar sem dar voz. O método é radical para ver tudo o que emperra abaixo da laringe! Retomam-se esses exercícios em todas as posições: de pé, joelhos ligeiramente dobrados, ombros suaves, dedos ligeiramente pousados, sem crispar-se, sem apoiar-se, no encosto de uma cadeira. As costas alargam-se então ao máximo, a respiração amplifica-se na base das costelas, a voz reencontra sua plena sonoridade ressoando no tórax inteiro. Recomeça-se de quatro, ou deitado de costas, pernas dobradas… Fazem-se poucos vocalizes: o trabalho é orientado sobretudo para a vida prática. Aprende-se a falar com desenvoltura, a fazer-se ouvir. O segredo? Antes de abrir a boca, ser plenamente consciente de si, do corpo, e do que se pode exprimir.

«Quando minha voz começava a rasgar-se, quando o burburinho se tornava intolerável, conta Alain Jacques, professor, comecei a cessar toda atividade, subitamente, em plena aula. Distendia-me, respirava, deixava minha cabeça subir a seu lugar… e reencontrava o auditório mudo, atento, tornado subitamente silencioso pela surpresa! Podia retomar com uma voz calma, tranquila…»

Mas os problemas de voz são frequentemente complexos, complexos demais para que um simples trabalho do corpo, da laringe, da fonação baste para resolvê-los. A voz está então doente do que se quer dizer e não se ousa exprimir. Ou do que se recusa em si. Melhorá-la é fazer ressurgir o conflito oculto com força aumentada. A voz, então, não pode arranjar-se senão com um trabalho psicológico em profundidade.

Um novo nascimento pelo ouvido

O ouvido desempenha em particular um papel fundamental na reeducação da voz. Alfred Tomatis sustenta que os distúrbios da palavra se corrigem como se criam: pelo ouvido. Segundo esse pesquisador que trabalha na questão desde 1954, a maioria deles é de origem psicológica e devem ser superados por um «novo nascimento», uma «nova educação» acústica. Para falar corretamente, ter uma linguagem bem articulada, um timbre agradável, é preciso uma nítida predominância do ouvido direito, que ele chama «diretor».

Estes últimos pontos, suspeita-se, não fazem unanimidade. Tomatis afirma tê-los demonstrado por experiências pitorescas. Pediu a um cantor, a um ator profissionais que apresentassem uma parte de seu repertório em que estavam particularmente à vontade, diante de um aparelho que permitia devolver-lhes aos ouvidos o som de sua própria voz, filtrado. Quando os dois fones funcionam normalmente, sem problema. Quando o som não chega mais senão ao ouvido direito, a sonoridade e o fraseado tornam-se ainda melhores. As cobaias notam elas mesmas uma facilidade aumentada. Que se lhes deixe apenas o ouvido esquerdo, e zás! Perdem todos os seus meios. A voz torna-se pesada, grosseira, o ritmo retarda-se consideravelmente, o virtuose começa a cantar desafinado…

A escuta, assegura Tomatis, começa antes do nascimento, no ventre materno. O bom uso do ouvido depende de nossas primeiras relações com nossos pais. Um conflito com o pai pode produzir um «canhoto» auditivo, com todos os distúrbios que daí decorrem: gagueira, dislexia, voz ruim e má integração ao mundo. Uma recusa da voz materna é ainda pior: é toda a comunicação com o exterior que é posta em causa, às vezes até o autismo ou aos distúrbios mentais mais graves. Mesmo nos «normais», o ouvido é extremamente sensível aos choques psicológicos diversos.

Felizmente, pode ele reeducar-se, reencontrar sua sensibilidade, sua flexibilidade por um tratamento adequado: uma espécie de ginástica sob fones graças a um aparelho especial, o ouvido eletrônico, capaz de combater a preguiça auditiva sem a mínima intervenção da vontade, jogando sobre todo um sistema de filtros e de variações de intensidade. Vantagem: eliminaram-se assim todos os «parasitas» que progressivamente vieram acrescentar-se à voz sob o efeito das poluições sonoras ambientes. Recentra-se, reencontra-se, afirma-se a personalidade. O resultado é probante: o C.E.S.D.E.L. conta entre sua clientela numerosos profissionais da voz — advogados, professores, executivos — que aí adquirem não somente um timbre mais satisfatório, mas uma nova segurança.

O «perfil» uma vez fixado, pode-se passar a uma fase mais criativa: jogar com o ouvido para encontrar, em sua voz, uma inspiração nova. Contrariamente a Tomatis, o C.E.S.D.E.L. não condena o ouvido esquerdo. Quando ele conduz o jogo, asseguram seus animadores, põe nossa imaginação, nossa sensibilidade nos comandos. O ouvido direito, ele, é o da razão, do intelecto: falar-lhe preferencialmente é desenvolver, e utilizar a fundo, todas as suas faculdades lógicas. Mas que fazer se temos a voz cortada, deformada pela emoção, uma falsa imagem de si? Mal um progresso se manifesta, arrisca-se a recusá-lo, a refugiar-se mais profundamente em um defeito. A voz nada mais é que um sistema sofisticado de defesa.

Uma encruzilhada entre si e o outro

«A voz é uma encruzilhada entre o corpo e a linguagem, entre o consciente e o inconsciente, entre si e o outro», explica de seu lado Marie-Claude Pfauwadel. Foniatra e médica, ela acaba de consagrar todo um livro à voz, a seus distúrbios e à sua reeducação: Respirer, parler, chanter (Le Hameau). É, pelos acasos de sua história pessoal, de formação psicanalítica. Isso não é em nada obrigatório em seu ofício, mas de utilidade essencial em sua prática. Ela nem por isso começa todos os «balanços foniátricos» — os exames que servem de base a seu diagnóstico — por uma observação atenta da laringe do paciente. As cordas vocais podem estar em tão mau estado que uma intervenção cirúrgica se impõe. É raro: a voz é o domínio por excelência das afecções psicossomáticas, dos distúrbios funcionais.

A Dra. Pfauwadel recebeu um dia uma professora dotada de uma voz de menininha perfeitamente insuportável, aguda, anasalada. A paciente não vinha por iniciativa própria, mas por ordem de sua diretora de estabelecimento. Faz progressos rápidos… e desaparece. Os encontros eram marcados de antemão: Pfauwadel decide esperar. A paciente acaba por voltar, envergonhada: «Eu chegava à sua porta, não conseguia entrar. Acho que prefiro guardar minha voz como ela é…» Falar como uma menininha tinha para ela uma vantagem: permitia fazer o impasse sobre a sexualidade. Sem que o confessasse a si mesma, perder essa defesa lhe causava medo.

Enfrentar um conflito, modificar a ideia que se fez de seu «destino», a partir das experiências infantis… Trabalhando sobre si, pode-se remontar muito rápido ao passado. O ritmo exprime a maneira de situar-se em relação ao mundo: sente-se ou não integrado? A intensidade está vinculada ao nível de energia. Lembranças muito fortes podem surgir quando se lhe pede falar mais alto ou menos alto do que tem por hábito. A respiração está muito ligada aos comportamentos emocionais. Quanto aos ruídos não vocais (raspadelas de garganta, estalos de lábios), traduzem as pulsões.

Por viés diferente, Henri Chédorge está embarcado em uma exploração emocional da mesma ordem que a de Magnabosco. A voz humana, diz ele, é feita para exprimir a gama completa dos sentimentos. Os Antigos não somente o sabiam, mas o faziam. Existiam cantos, vozes para todas as circunstâncias da vida. Cada um, homem e mulher, utilizava a totalidade de seus registros: a voz de peito, dita também «registro viril» (é a mais grave), e a voz de cabeça, denominada por irrisão «voz de falsete» desde o século XIX, quando se passou a censurar os cantores por não poderem aí aceder em timbre viril.

Com a revolução industrial e o desenvolvimento do poder masculino na sociedade, essa confusão sonora dos sexos tornou-se bruscamente «tabu», tanto em cena quanto no lar.

O canto primordial

É essa censura que Chédorge se propõe levantar, em seus estágios de «canto primordial», em que se esforça por repor seus alunos em contato com as energias primitivas, a alegria pura, sem causa, as forças da natureza que estão em cada um de nós. Como as escolas de canto antigas, cujos métodos reencontrou por longa pesquisa documental, concentra seu trabalho sobre as zonas em que os registros se cruzam. Reencontrar-se vocalmente bissexual representa, para muitos participantes, um choque salutar. Quando a emoção se torna forte demais, passa-se a um registro mais desencarnado, mais elevado: um arrebatamento para a mais alta das vozes de cabeça. Crer-se-ia ouvir anjos em uma catedral. Depois, mergulha-se de novo em um alegre concerto de coaxadas de rãs.

«Lembrem-se, diz Chédorge, para subir é preciso apoiar o sopro o mais baixo possível; para descer, não esquecer de fazer ressoar a voz na cabeça.» Explorando todos esses extremos, reencontra-se o próprio centro. E a estabilidade, a segurança de si que permite deixar tudo passar em sua voz, dizer tudo… Alguns se bloqueiam, têm medo: Chédorge jamais força ninguém, não impõe progressão alguma. Cada um avança em seu ritmo.

Pode-se enfim buscar em sua voz o prazer puro. Trabalhá-la pelo, e para, seu simples efeito vibratório. Torna-se então o equivalente sonoro de uma espécie de acupuntura, cuja ação é forte sobre o físico, sobre o mental, sobre o espiritual e sobre o nível de energia. É o caso, entre outros, da psicofonia, posta a ponto por uma antiga cantora lírica, Marie-Louise Aucher, e utilizada há quase trinta anos em psicoterapia, em pedagogia e em desenvolvimento pessoal.

Na maternidade de Pithiviers, no serviço do Dr. Odent, Marie-Louise Aucher estende mesmo os benefícios às crianças por nascer. No âmbito de uma preparação ao «nascimento sem violência», pondo o acento na acolhida do bebê com doçura, organiza corais de futuros pais. Isso permitiria ao feto gozar, no ventre de sua mãe, de uma espécie de massagem sonora, excelente para o desenvolvimento de seu sistema nervoso. Isso torna, em todo caso, a ambiência do hospital particularmente distendida e calorosa.

O corpo inteiro é um instrumento vibrante, diz Marie-Louise Aucher. Cada nota da voz humana, que se a emita ou que se a receba, ressoa em um ponto particular que se escalona, do grave ao agudo, entre a planta dos pés e o alto da cabeça. Esses pontos são os mesmos que se utilizam em acupuntura.

Recebida, a voz pode embalar ou agredir, provocando acumulações de tensão nervosa das quais não se pode libertar senão exprimindo-se por sua vez. Pode-se gritar, mas mais vale cantar! Ao fazê-lo, «vibra-se» a si mesmo, do interior. O efeito é tanto mais benéfico quanto mais bem colocada está a voz. Chegado ao ótimo, sentir-se-ia como envolto em um casulo, totalmente em segurança, eufórico…

Para obter tal resultado, a psicofonia propõe uma progressão precisa. Supõe previamente uma distensão, física e mental, uma postura correta, um trabalho aprofundado sobre a respiração. Quanto ao trabalho vocal propriamente dito, aborda sete «planos de expressão», desde a simples colocação de voz até o canto sagrado: «Crente ou não, assegura Marie-Louise Aucher, nada permite ao espírito planar mais alto.»

Como explica outro praticante do canto sagrado, Iegor Reznikoff, os lugares onde ressoa a voz (cabeça, garganta, peito) são, no corpo, os espaços mesmos da oração: por suas harmonias elevadas, a voz age diretamente sobre a consciência. Cantar representa um dos meios mais seguros, mais rápidos para entrar em meditação, penetrar no «mundo invisível» da alma, do espírito.

Reencontra-se assim a «vibração natural» do corpo, perdida por anos de poluição sonora. Para Reznikoff, desde a invenção do piano e de seus intervalos regulares, toda a música tornou-se «falsa». Durante anos, «lavou o ouvido» não escutando senão músicas orientais, africanas ou primitivas. Depois reconstituiu os cantos gregorianos tais como deviam ser na origem. Seus grupos de canto sagrado, em que o sânscrito coabita com a liturgia cristã e nossa mais bela música de igreja, atraem fiéis apaixonados. «Esse trabalho é para mim um complemento essencial do ioga», diz um de seus alunos. «Encontro nele o élan interior que me falta nos corais ordinários», diz outra. Assistir a uma aula, ainda que apenas como ouvinte, dá em todo caso uma extraordinária sensação de paz e de distensão. Sente-se envolto em vibrações, perde-se todo sentido de espaço e de tempo, plana-se…

Pode-se ir ainda mais longe, perder-se — ou encontrar-se? — nos «mantras» que propõe a Ioga do Som. Já não há ali senão sons puros, anteriores à linguagem, sem salmodia, sem melodia. Apenas as vogais: u (pronunciado u), a, ô, é, e o infinito do «ôm» que o arrasta a um não-sei-onde, mas em uma felicidade total. Sob a condução de Pierre Molinari, professor de aikido e de shiatsu (acupuntura sem agulhas) formado no Japão, estamos ali, sentados em círculo, de pernas cruzadas ou sobre os calcanhares, costas bem retas, olhos cerrados, em postura de meditação. O som nos engolfa, nos arrasta para fora de nós mesmos, em um «aqui e agora» absoluto.


A semiofonia: é preciso entender-se…

Você está instalado em um laboratório de fisiologia diante de um microfone. Tem um fone na cabeça e fala. Sua voz passa por um amplificador e, para os fins do experimento, só lhe retorna aos ouvidos com um tempo de retardo. Ao cabo de alguns instantes, você começa a gaguejar; em breve, não poderá mais falar de modo algum, ficará momentaneamente afônico.

Esse experimento, entre muitos outros, pôs em evidência o papel do ouvido na emissão da palavra. Em termos técnicos, é o que se chama a alça áudio-fonatória. Para falar, para emitir sons, para utilizar a voz, é preciso entender-se. É sobre a base dessas constatações que o Dr. Isi Beller pôs a ponto em 1969 um método de reeducação dos distúrbios da linguagem.

A semiofonia toma o mal pela raiz, aquém da leitura e da escrita, da palavra e da linguagem: no nascimento da voz. A questão de base é, com efeito: como controlar sua voz? Naturalmente, utilizamos a sensação interna que nos transmitem as cordas vocais, a glote, a faringe etc. Mas é sobretudo graças ao ouvido que podemos conhecer o timbre, a justeza e a potência de nossa voz.

Na vida corrente, esse controle é muito menos refinado, faz-se inconscientemente, quase no nível reflexo. Aprendemos a escutar-nos falar, primeiro imitando o outro, a mãe, o pai; em seguida, realizando que somos capazes de produzir sons idênticos. Quando distúrbios da linguagem — ou da leitura e da escrita — se manifestam em uma criança, é o sinal de que esse controle primordial não foi adquirido de maneira satisfatória. O método semiofônico, em vez de buscar, como os métodos clássicos, elevar, fazer crescer a criança por uma pedagogia que permitiria, apesar de tudo, construir sobre fundações trincadas, emprega-se em contornar o sintoma, em ajudar o sujeito a reaprender a controlar sua voz, a entender-se a si mesmo, a escutar-se. Uma das técnicas utilizadas consiste em aumentar, graças a um semiofone — uma espécie de magnetofone especializado ligado a fones —, a quantidade de agudos na voz. Pôde-se com efeito demonstrar que os agudos estimulam o centro da linguagem do cérebro.

A semiofonia, utilizada principalmente para a reeducação dos distúrbios da linguagem na criança — com uma porcentagem importante de êxito —, pode ajudar atores e cantores a tirar o máximo de seu instrumento. Permite igualmente àqueles que aprendem uma língua estrangeira adquirir um bom sotaque, entrar no corpo da língua.

— Constance Morsi

Cf. La Sémiophonie, les troubles du langage, la dyslexie, la rééducation sémiophonique, Maloine, 1973.

Vibrações sonoras e faculdades mentais

Se se encontram «dons de predileção» correspondentes a cada cultura europeia, talvez seja por causa da região da cabeça em que vibram os fonemas das línguas nacionais, assegura Marie-Louise Aucher.

O neerlandês vibra sobretudo em direção ao occipital, na parte de trás da cabeça, na base da área visual. Será por isso que há tantos grandes pintores nos Países Baixos? O alemão vibra também ele atrás do crânio, mas um pouco mais acima: no alto da área visual. Isso favoreceria sobretudo a visão interior. Daí o grande desenvolvimento da filosofia conceitual nesse país.

O italiano sobe direto ao alto da cabeça, na zona do córtex onde se situa a consciência dos pés. Daí as qualidades de equilíbrio, de facilidade natural, de naturalidade perfeita sem complicações mentais desse povo?

Quanto ao francês, ele desemboca perto do nariz, na zona pré-frontal, a da inteligência, das escolhas lógicas e racionalizadas. Para os ingleses, enfim, nem problema nem dons particulares: são os únicos europeus a enviar o som diretamente aos lábios, sem a menor ressonância no crânio, sem a menor massagem vibratória do cérebro.


Para saber mais

  • Les plans d’expression: schéma des psychophonie e L’Homme sonore, por Marie-Louise Aucher (Epi, 1982).

  • Chansons pour l’enfant à naître (cassetes), O.C.L., Atelier de Livry, 14241 Caumont l’Éventé.

  • Je me chante, 30 chansons pour la découverte du corps et l’éveil de la personnalité (UNI-DISC UD30 1387).

  • Respirer, parler, chanter, por Marie-Claude Pfauwadel (Le Hameau, 1981).

  • Trouver la voix, petit guide pratique du travail vocal, por Louis-Jacques Rondeleux (Le Seuil, 1982).

  • Alfred Tomatis publicou três livros: L’oreille et le langage (Le Seuil, 1963), L’oreille et la vie (Laffont, 1982), La nuit utérine (Stock, 1981).

  • La voix, por E. Garde (PUF, Que sais-je?, n.° 954).

  • L’ombilic et la voix, por Denis Vasse (Le Seuil, 1974). Ponto de vista psicanalítico.

  • La voix, l’écoute, revista Traverses n.° 24 (1980).

— Catherine Dreyfus, revista Psychologie*, 1982.*